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Artigo: Quando 50 + 20 não é 70

Final de ano é mesmo uma época que favorece “novidades”. Pois recentemente, no bojo dessa loucura que foram as promoções de Natal, me deparei com um anúncio que julguei vir do tempo em que “madre superiora” José Sarney ainda era presidente (argh!) do Brasil. Aos mais jovens, explico melhor: José Sarney foi presidente brasileiro (na verdade, foi eleito Tancredo Neves mas, como ele faleceu antes da posse, Sarney, que era o vice, assumiu) no período entre 1985 e 1990. Como positivo dessa época, temos a consolidação da democracia brasileira. Como fatos negativos, uma hiperinflação (em março de 1989, a nossa inflação chegou a 81% ao mês) e uma moratória.

Bem, mas o assunto de que vou tratar está relacionado com esse tempo negro da história brasileira, e que ressurgiu neste final de ano: os chamados “descontos em cadeia” (falarei sobre isso com mais propriedade em uma postagem adiante). É mais uma forma de ‘enganar’ o consumidor desavisado. Mas como se dá isso?

Tomemos um item imaginário, que custe R$ 1.000,00 (pode ser muito bem uma TV de tela plana). O anúncio informa que o desconto é de 50% + 20%. O sujeito não muito dado à matemática (vamos chamá-lo aqui de João) olha o cartaz da promoção em letras garrafais, e pensa: “nossa, barbada!”. E imagina que o aparelho lhe custará R$ 300,00 (ou seja, R$ 1.000,00 menos 70%). Ledo engano. Com o ‘desconto em cadeia’, temos:
Situação real:

Veja que o desconto aplicado em cadeia não é dado sobre o preço bruto do bem, mas sim sobre seu preço líquido, sempre considerando o abatimento anterior. Ora, então o resultado não é o mesmo encontrado por João. Se ele supunha que o desconto oferecido fosse 70% (50% + 20%, lembra?), sua TV deveria custar R$ 300,00, e não os R$ 400,00 que estão cobrando. Mas João está tão feliz pela ‘descoberta’ desta promoção que nem pensa em reclamar. Ele quer mesmo é botar essa maravilha na sua sala. Porém, se João pensasse um pouco, veria que a diferença não é tão pequena assim. Por que?
Situação imaginada por João:

Confrontando os dois resultados, verificamos que João, por absoluto desconhecimento, vai pagar 33,3% a mais por sua televisão, se compararmos com o preço inicial imaginado por ele. Essa é uma maneira que nos induzem a pensar que um produto é ‘barato’, para tomarmos a decisão de compra sem analisarmos melhor as variáveis envolvidas. É dessa forma que nós, consumidores, somos tentados e pegos diariamente. Desatenção, precipitação e, principalmente, desconhecimento são as nossas características que, utilizadas pelo varejo, nos levam ao erro. E, invariavelmente, temos sido derrotados nessa batalha.

José Mario

Sobre José Mario

José Mario é pós-graduado em Administração e empresário. Foi bancário, árbitro de Tribunal de Mediação e Arbitragem e dirigente de classe empresarial. Especialista em microfinanças, é Orientador em Finanças Pessoais desde 2001, dedicando-se à educação financeira e interessado em tudo o que se relaciona com o assunto. É o editor da Clínica de Finanças, website voltado ao ensino e análise das finanças pessoais.

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