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O brasileiro rasga dinheiro

Quando você não sabe dizer qual a taxa de juros que está pagando num financiamento, quando não consegue juntar dinheiro para pagar sua compra à vista, quando não faz sobrar nada do seu salário, alguma coisa de muito séria está acontecendo.

Pois essa é a realidade para a maioria dos brasileiros. Pela lógica, ninguém rasga dinheiro: os consumidores preferem os produtos mais baratos, os empresários preferem o lucro ao prejuízo e os investidores preferem aplicar em ações de empresas com maior potencial de crescimento. Mas isso é teoria. Pelo menos no Brasil.

Hoje o Brasil pode ser considerado como “o país das parcelas”. Praticamente tudo é vendido a prazo. Mas isso não é o pior da história. O problema é que o consumidor acostumou a pagar tudo a prazo, “com zero de juros”. Vende-se carros, jóias, iates, eletrodomésticos, óculos, roupas, combustível, comida e tudo o mais que se possa imaginar, em suaves prestações mensais. Não é à toa que – nos últimos cinco anos – o volume de crédito triplicou no Brasil. E continua subindo.

O Instituto Ipsos, a pedido da Revista Exame, pesquisou a atitude do brasileiro em relação ao crédito. Os resultados são alarmantes: dois em cada três entrevistados não sabem a taxa de juros dos seus financiamentos; 60% deles declararam que farão mais empréstimos até o final do ano e, confirmando o que se sabe sobre a educação financeira dos brasileiros, quase metade dos entrevistados disse que o que interessa na compra é o tamanho da parcela mensal, e não o preço final do produto. O famoso “se a prestação couber no meu salário, vou levar”, ou então, a vitória do bordão de Samuel Klein, das Casas Bahia, que vendia a crédito para quem não tinha dinheiro ou conta em banco: “quer pagar quanto?”. Alguns dados sobre a realidade do crédito no Brasil, segundo a pesquisa:

 

  • 60% dos carros zero km vendidos no Brasil são financiados;
  • 80% dos pacotes de turismo da CVC, maior operadora do país, são vendidos em até 10 parcelas;
  • Artigos de luxo também entraram na mira: a Rolex vende um relógio que custa R$ 75 mil em 6 x R$ 12.500,00, e a joalheria Cartier vende qualquer peça em até 10 vezes;
  • O Brasil é o único país em que as passagens da American Arirlines podem ser parceladas;
  • A dívida de consumo das famílias representa, na média, 30% de sua renda anual;
  • Nos Estados Unidos, quem compra um carro financiado paga uma taxa média de 6% ao ano. No Brasil, a taxa é de 30%;
  • No cartão de crédito, os juros brasileiros são oito vezes maiores que no México e 12 vezes maiores que na Austrália ou na Inglaterra;
  • Os brasileiros já gastam 25% da sua renda com o pagamento de empréstimos, sendo que 58% desse dinheiro é aplicado na quitação dos juros dessa dívida;
  • As duas linhas de crédito que mais crescem no Brasil são o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, justamente as mais caras disponíveis, com juros anuais ultrapassando 180%.

O resultado disso é que sumiu completamente do nosso dia-a-dia a modalidade de compra “à vista”. Hoje, juntar dinheiro e liquidar tudo em uma vez pressupõe que se pague o total dos juros “embutidos e escondidos” em uma só parcela. Perdemos o jeito e desaprendemos a negociar. Hoje o varejo trabalha com a idéia de que comprar a prazo é mais cômodo e inteligente, o que carece de realidade. E a opção pelo socorro via cheque especial ou giro no cartão prende-se ao fato de que se trata de duas das modalidades mais fáceis de lançar mão e, justamente por isso, que cobram a maior taxa de risco do tomador. Toda comodidade tem seu preço e, geralmente, ele é alto.

José Mario

Sobre José Mario

José Mario é pós-graduado em Administração e empresário. Foi bancário, árbitro de Tribunal de Mediação e Arbitragem e dirigente de classe empresarial. Especialista em microfinanças, é Orientador em Finanças Pessoais desde 2001, dedicando-se à educação financeira e interessado em tudo o que se relaciona com o assunto. É o editor da Clínica de Finanças, website voltado ao ensino e análise das finanças pessoais.

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