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Devedor chega a oferecer carro de graça para se livrar da dívida

Chegou a hora, e ela veio mais cedo que o esperado.

Muitos consumidores que, conquistados pelo ‘canto da sereia’ do governo, compraram veículos financiados começam a ter complicações com o pagamento das parcelas. Ao tentarem vender o carro para liquidar o financiamento, notam que ele depreciou, valendo bem menos que o esperado. A grande oferta de automóveis no mercado ajuda a pressionar as cotações para baixo. Com isso, muitas vezes, o valor conseguido com uma eventual venda não consegue quitar a dívida. Uma verdadeira sinuca de bico.

Para resolver o problema, muitos consumidores têm tentado uma solução caseira: repassar o automóvel e a dívida a outra pessoa. Às vezes, no desespero, até de graça.

O plano desses desavisados consumidores funciona assim: como a venda do carro não basta para liquidar a dívida, eles querem se livrar do financiamento com a entrega do carro para outra pessoa. “Vai o carro, vai a dívida”. Não há números oficiais, mas financeiras e lojas de automóveis reconhecem que essa iniciativa de tem se repetido cada vez mais no País. Após a exuberância do crédito fácil e abundante dos últimos anos, clientes com dificuldades financeiras se desesperam ao perceber que não basta vender o carro para quitar o empréstimo. Os que mais sofrem são aqueles que optaram pelo financiamento de 100% do veículo.

Mas atenção: se à primeira vista essa pode parecer uma solução interessante, é preciso atentar para outro detalhe: ao repassar tanto o carro quanto a dívida, NÃO HÁ TRANSFERÊNCIA DE TITULARIDADE DO FINANCIAMENTO. Portanto, um risco altíssimo: se o novo ‘proprietário’ deixar de pagar as prestações, é o devedor original quem arcará com os ônus. Numa eventual inadimplência, é o seu nome que irá constar dos cadastros do SPC e da Serasa.

O impacto dos juros nos financiamentos nem sempre é notado pelo comprador. Isso se deve ao desconhecimento geral sobre a matéria. Mas os efeitos, esses aparecerão mais cedo ou mais tarde. Veja a seguir uma simulação de compra de automóvel, em 60 meses, sem entrada. O veículo escolhido foi um modelo de entrada (Fiat Uno Fire Flex 1.0, 2012/2012, 0 km, 2 portas, básico, pintura sólida). A taxa considerada para esse financiamento foi de 2,0% ao mês, e o “carnê” seria de 60 x R$ 661,38:

(¹) Percentagem de amortização do capital sobre o valor do bem no final do período

Note que, ao final do terceiro ano de pagamentos (60% do prazo), o proprietário amortizou menos da metade do valor do carro. Até esse 36º mês ele terá recolhido R$ 13.328,73 a título de juros, e apenas R$ 10.480,79 (45,6% do valor original) como amortização de capital. Essa é a realidade indigesta do sistema Price, largamente utilizado nos financiamentos de bens e nos crediários: nas primeiras parcelas, o devedor paga sempre uma fração maior de juros, e menor de capital. Na metade do plano de pagamentos, ele ainda não conseguiu equilibrar essa equação.

Além desse problema relacionado às prestações do financiamento do carro, há aqueles ligados ao custo de funcionamento e manutenção, tratados anteriormente aqui.

José Mario

Sobre José Mario

José Mario é pós-graduado em Administração e empresário. Foi bancário, árbitro de Tribunal de Mediação e Arbitragem e dirigente de classe empresarial. Especialista em microfinanças, é Orientador em Finanças Pessoais desde 2001, dedicando-se à educação financeira e interessado em tudo o que se relaciona com o assunto. É o editor da Clínica de Finanças, website voltado ao ensino e análise das finanças pessoais.

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