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Corrupção: o preço que se paga

Gravação de conversas, investigações, delações premiadas, escândalos e cerco político ao presidente tem estampado sites, páginas de jornais e feito parte do conteúdo dos telejornais nos últimos dias. Qual o preço disso para a população brasileira e para a economia do país? É o que vamos tentar mostrar aqui.

1. O fato de, no Brasil, o dinheiro público se misturar/financiar obras e negócios privados facilita a corrupção?

Não, a ideia não é essa. O dinheiro público, vindo de bancos estatais, pode sim (e deve) ser utilizado como estimulador de desenvolvimento. Temos como exemplo o dinheiro do FGTS – dos trabalhadores e administrado pelo governo – que financia o sistema de financiamento da habitação fomentado pela CEF, Banco do Brasil e bancos privados. Temos também os recursos da Caderneta de Poupança, para a mesma finalidade. O problema da corrupção é cultural: um misto de possibilidade de ganho fácil e abundante somado a um baixo risco de criminalização.

2. É o segundo escândalo envolvendo o presidente da República em um período de menos de dois anos. O que isso significa para a economia do país?

A economia e, por extensão, os investimentos privados necessitam de ambiente equilibrado e credibilidade para que os recursos fluam normalmente. Quando problemas como os que estamos vivenciando surgem, a credibilidade vai embora e, com ela, os investimentos externos que alimentariam o crescimento e desenvolvimento da economia nacional. É um péssimo momento e as consequências, lamentavelmente, serão danosas. Justamente no instante que o país começava a demonstrar recuperação após a maior recessão da sua história.

3. A corrupção acaba encarecendo produtos e serviços usados pelo brasileiro?

Sim. Temos que entender que a cada vez que dinheiro é desviado para pagamento de corrupção, esse mesmo recurso fará falta para algum tipo de necessidade da população, visto que o governo não ‘fabrica’ dinheiro. Esse valor irá parar na conta de alguém – doleiro, político, lobista… – e não será contabilizado como disponibilidade do Tesouro. Os R$ 3 bilhões de reais, confessados por apenas duas empresas como sendo recursos que ‘compraram’ políticos, demonstra muito bem o volume de recursos desviados nesses anos todos.

4. Na semana passada, quando o Presidente da República foi acusado de dar aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha, o dólar disparou, ações brasileiras na Bolsa de Nova Iorque caíram. Explique esse efeito para o nosso ouvinte. Como o mercado externo reage a esse tipo de situação?

Como foi dito anteriormente, o mercado vive de credibilidade. Ninguém vai botar seu dinheiro num banco com má fama, ou sobre o qual existam comentários de que está falindo. Você não empresa seu dinheiro para alguém que reconhecidamente é mau pagador, ou que lhe dará preocupação quanto ao recebimento. Assim também funciona a economia: boa parte dos recursos que circulam no mercado brasileiro provêm de fora, de investidores estrangeiros, que oferecem seu capital em troca da alta remuneração dos juros brasileiros. Para continuar ‘emprestando’ dinheiro ao país, num caso assim o investidor vai querer um prêmio (juros) maior. O dólar, que é a moeda que baliza a economia mundial, comporta-se da mesma maneira. Quando a situação está tranquila, cômoda, sua cotação tende a estabilizar-se. Nas crises, ele dispara. Já com relação à Bolsa, esse é um movimento que demonstra a desconfiança do investidor na economia brasileira: quem detinha ações de empresas brasileiras tratou de vendê-las imediatamente, prevendo um eventual risco sistêmico. Para termos uma pequena noção de como esse mercado reage às mínimas oscilações, veja essa nota do jornal Valor Econômico na edição do dia em que vazaram os termos da delação premiada de Joesley Batista: “Na quinta-feira, dia 18 de maio, as empresas brasileiras listadas no iBovespa perderam mais de R$ 215 bilhões em valor de mercado”. O setor bancário foi o que mais sofreu com essa queda brutal: o Banco Itaú teve perda de R$ 85 bilhões com o desmoronamento da cotação de suas ações. Isso em APENAS UM DIA!

5. Com esse escândalo envolvendo Michel Temer, pautas consideradas importantes para o governo federal, como as reformas Trabalhistas e da Previdência, agora, devem ficar paradas no Congresso? Qual a consequência disso?

Sim, essas reformas especificamente em tese não deverão andar, pelo menos no curto prazo. Já a única que se movimenta é a PEC das Eleições Diretas. Um típico casuísmo brasileiro que devemos combater: seria a chance que pessoas investigadas (Lula, Dilma, Temer, Aécio) teriam de, numa eventual vitória, proteger-se sob o manto do foro privilegiado. Se queremos limpar o país, não podemos concordar com esse tipo de manobra.

Quanto mais demorarmos para aprovar reformas fundamentais, mais demorada fica a retomada do crescimento.

6. O caminho para a mudança é longo. Mas ele passa, inevitavelmente, pela maior transparência na gestão do dinheiro público? Quais outros meios?

Sim, fundamentalmente por essa transparência. Mas não apenas por ela: será preciso reformarmos nossa Constituição, que infelizmente se mostrou uma verdadeira ‘peneira’, onde chicanas e atalhos para a proteção de alguns poucos são a tônica. E também alterarmos a forma como os Ministros das altas cortes são escolhidos/nomeados, sepultando o modo atual de nomeação por apadrinhamento.

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(Essa matéria foi o tema do quadro ‘O Especialista’, veiculado pela Rádio Brasil Central AM 1.270 de Goiânia, na terça-feira 23/05/2017, a partir das 9:05 h)

José Mario

Sobre José Mario

José Mario é pós-graduado em Administração e empresário. Foi bancário, árbitro de Tribunal de Mediação e Arbitragem e dirigente de classe empresarial. Especialista em microfinanças, é Orientador em Finanças Pessoais desde 2001, dedicando-se à educação financeira e interessado em tudo o que se relaciona com o assunto. É o editor da Clínica de Finanças, website voltado ao ensino e análise das finanças pessoais.

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