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A inadimplência dos brasileiros não cede

Uma pesquisa da empresa de recuperação de crédito Recovery mostra que hoje o brasileiro inadimplente deve, em média, três vezes o que ganha e, em alguns casos, acumula até 20 dívidas diferentes. Enquanto isso, o número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a mais de cinco milhões em maio, segundo levantamento da Serasa Experian. Como explicar números tão absurdos?

1.   Qual a explicação para esse número tão absurdo de inadimplentes no nosso país?

No caso das pessoas físicas, a tomada de crédito sem a devida preocupação com os custos financeiros e a incapacidade de liquidar a totalidade da fatura de crédito podem ser considerados como os motivos mais citados. O alto desemprego também aparece como uma das causas importantes.

Com relação às empresas, a explicação é a retração nas vendas originada na queda do ritmo de produção, ocasionada pela recessão brasileira. Isso debilita o fluxo de caixa das empresas e faz com que os empreendedores optem por frear tanto contratações de pessoal como nível de produção.

2.   Ainda segundo a pesquisa, 36% dos inadimplentes não sabem o tamanho de sua dívida. Isso mostra muito sobre como o brasileiro tem lidado com o dinheiro?

Sim, esse é o retrato perfeito do relacionamento do brasileiro com sua renda. A falta de informação associada a uma certa indolência com relação às preocupações financeiras produz um quadro catastrófico das microfinanças no Brasil.

3.   O inadimplente brasileiro tem um perfil (mulher, homem, classe B, ensino médio, ensino superior…)? Ou o endividamento tem assolado qualquer um?

47% dos brasileiros inadimplentes se consideram “muito endividados” (aqueles que possuem ‘nome sujo’, ou seja, inscritos nos serviços de proteção ao crédito). Para 60% desses, as dívidas comprometem mais de 50% da renda ao final de cada mês.

Os brasileiros entre 30 e 39 anos são os que mais figuram na lista dos devedores, marcando 17,2 milhões de negativados em junho. As pessoas entre 40 e 49 também apresentaram alta taxa de inadimplência (47,79% dos brasileiros com essa idade), seguido dos consumidores de 25 a 29 anos (46,58%).

A região Sudeste é a que concentra, em termos absolutos, o maior número de negativados com um total de 25,8 milhões de consumidores ou 39,45% da população adulta da região.

O Nordeste é a região que aparece em seguida, com 15,7 milhões de negativados, seguido do Sul com 7,9 milhões de inadimplentes. O Norte aparece em quarto na lista das regiões com 5,4 milhões de devedores e o Centro-Oeste, um total de 5 milhões de inadimplentes.

4.   Vamos dar dicas para os nossos ouvintes. Quem se encontra inadimplente/endividado e quer sair desse patamar, como proceder? Qual o primeiro passo?

·         É fundamental conhecer o tamanho da sua dívida. Relacione tudo o que está devendo. Algumas delas se escondem sob a forma de consignado ou débito em conta. Portanto, muita atenção a esse detalhe;

·         Analise uma a uma, ordenando-as em função do custo financeiro envolvido (o CET – Custo Efetivo Total, informação obrigatória em qualquer operação de crédito);

·         Separe as dívidas mais caras e ataque essas primeiro. Rotativo do cartão de crédito e cheque especial estão, normalmente, nesse grupo. Importante lembrar que é extremamente prejudicial parar de pagar qualquer dívida;

·         Em caso de dúvida, consulte um profissional. Evite tomar aconselhamentos com o gerente do banco: ele está mais interessado em manter seu emprego, e não no problema do cliente;

·         ATENÇÃO: para tomada de qualquer decisão nessa área, é preciso conhecer a sua situação financeira. Não adianta propor um acordo se você não conseguirá pagá-lo. Não assine nada sem antes ter certeza de que entendeu tudo. Formalizado o acordo de renegociação da dívida, esta deverá ser retirada dos serviços de proteção ao crédito pelo credor em até cinco dias úteis.

NA DÚVIDA, PROCURE UM PROFISSIONAL.

5.   Como dissemos no início, são mais de cinco milhões de empresas também inadimplentes. A situação do empresariado brasileiro, hoje, é complicada? Como chegamos a esse cenário?

Muito complicada. Até porque boa parte desses devedores é composta de micro e pequenos negócios, que possuem dificuldade de acesso a recursos que poderiam solucionar seus problemas.

A recessão brasileira, de mais de dois anos, e o alto patamar do custo financeiro brasileiro formam uma receita perigosíssima para quem não está acostumado com o assunto. Num cenário assim, a produção para, mas os custos continuam existindo.

6.   Brasileiros endividados, empresas inadimplentes: o que isso significa para o país e sua economia?

Mostra um quadro no mínimo desalentador. A economia está completamente ‘travada’ em função dessa conjunção de fatores. Consumidor endividado não compra, o que faz com que as empresas reduzam cada vez mais a produção – no caso da indústria. No comércio e também na área de serviços, os estoques são trazidos a quase zero para evitar capital engessado em mercadorias, e a busca por serviços é definida em função do menor preço.

Vai levar muito tempo para que a confiança se restabeleça e a atividade econômica volte a mostrar vigor.

7.   Há luz no fim do túnel? Essa situação de inadimplência (de pessoa física e das empresas) deve se reverter?

No curto e médio prazos é muito difícil. Dependendo das decisões governamentais – e o mercado brasileiro depende delas –  a retomada tanto pode se dar de forma regular e crescente, mesmo que vagarosa, como pode também sofrer solavancos, como vem acontecendo ultimamente.

Endivid

(Essa matéria foi o tema do quadro ‘O Especialista’, veiculado pela Rádio Brasil Central AM 1.270 de Goiânia, na terça-feira 25/07/2017, a partir das 9:05 h)

 

José Mario

Sobre José Mario

José Mario é pós-graduado em Administração e empresário. Foi bancário, árbitro de Tribunal de Mediação e Arbitragem e dirigente de classe empresarial. Especialista em microfinanças, é Orientador em Finanças Pessoais desde 2001, dedicando-se à educação financeira e interessado em tudo o que se relaciona com o assunto. É o editor da Clínica de Finanças, website voltado ao ensino e análise das finanças pessoais.

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